Conto - Sob um céu de ciano - Diarios de Cyan MacLeod - Ano de 271

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Conto - Sob um céu de ciano - Diarios de Cyan MacLeod - Ano de 271

Mensagem por Cyan MacLeod em 15.01.16 16:51

A noite era aquecida por uma brisa morna, vinda do mar. A meia lua erguia-se no céu limpo, pintando na tela da noite um contorno suave, ao redor das típicas torres quadradas de Pentos.
Coberto pela penumbra estava um jovem, de capuz. Os braços desnudos estavam cruzados sobre seu peito, enquanto apoiava as costas na parede mais ao fim do beco.
"Pensei que você não viria." disse.

"Pensava o mesmo de você." Foi a resposta vinda da escuridão. De lá surgia uma figura, também coberta com uma capa curta e escura.

"Está pronto? perguntou. O outro rapaz não disse nada, apenas fez um sinal com a cabeça.

O muro ao final da rua tinha a altura de dois homens, mas colocando um pé sobre as costas do companheiro, o primeiro garoto precisou apenas de um pulo para chegar ao topo. De lá estendeu o braço, e o segundo habilmente o alcançou, após um salto apoiado na parede.
Caíram em silencio do outro lado, que fazia parte de uma área fechada da marina, aonde grandes embarcações de madeira estavam ancoradas.

"Qual deles?" sussurrou. O companheiro apontou para um navio grande, com bandeiras vistosas. Guardas vestindo couros e armados com lanças podiam ser vistos no convés, a luz das lamparinas. "Lembre-se, sem mortes. Se não acharem nenhum corpo, só irão dar falta da mercadoria depois de dias.".
"Eu sei, não se preocupe. Lá dentro, cuide dos seus negócios que eu cuido dos meus" Respondeu, secamente.

Uma corrente escura e grossa brotava da agua do mar e subia pela lateral do casco. Como gatos, ambos saltaram para a corrente da ancora e de lá escalaram a bombordo. No caminho, reparou que ao lado de sua cabeça estava o nome do navio escrito em vermelho. Era adornado com crânios, cobertos de pele seca e ainda presos em seus longos cabelos. Pensou consigo, que tipo homem cruzaria o mar montado em um barco chamado de "Abismo", e o enfeitaria com cabeças decepadas e bandeiras coloridas.
Por um momento sentiu que deslizava lentamente para a enorme boca aberta de um monstro marinho, que esperava pacientemente para lhe engolir por inteiro.

Chegaram no convés e, abaixados atrás de um enorme rolo de corda, esperaram que um dos guardas passasse. Silenciosamente correram até a popa, pelo corredor lateral que circundava a cabine principal do navio.
Ali havia um guarda, a frente de uma pesada porta. Ele vestia uma expressão preocupada que não se modificou quando percebeu as duas figuras encapuzadas saindo do escuro. Uma delas deu um passo a frente e retirou da cintura um objeto coberto por um lenço fino, de cor marrom escuro.
"Como prometido" disse o garoto, oferecendo o que carregava ao mercenário.

O homem afastou as pontas do lenço, e mesmo sob a fraca luz da lua pode ver seu reflexo em uma bem polida lamina prateada e vermelha. Era uma faca longa e pontuda, com o cabo bem trabalhado. Com certeza valeria pelo menos um dragão de ouro.
Sem responder, ele colocou a arma no cinto, virou as costas e seguiu seu caminho.

Vendo o guarda se afastar, bastou abrir a porta, que estava destrancada. O interior estava escuro, e tornou-se breu total quando ao entrar, o segundo garoto fechou a mesma porta atrás de si.
Ficaram imóveis alguns minutos, enquanto acostumavam os olhos, escutando para ter certeza que ninguém havia percebido que chegaram.

Era um corredor de acesso estreito, com pelo menos quatro portas, que deviam ser quartos. Atravessando o local, havia uma pequena escada que descia, e foi o caminho que tomaram.
Logo a frente do ultimo degrau havia uma porta, reforçada com tiras de metal e trancada com um robusto cadeado de ferro.

Tendo certeza que não havia ninguém na entrada do corredor ao topo da escada, um dos garotos acendeu com cuidado uma pequena vela, e iluminou a peça. O outro ajoelhava diante do cadeado, tirando de um bolso dois arames que colocou na fechadura.
Após um tempo em silêncio, aonde se ouvia apenas o sussurro dos arames roçando no ferro, a sombra que tentava abrir o cadeado não resistiu e falou baixo: "Era de verdade, aquela faca?"
"Claro que sim. Direto de Qohor." respondeu a outra sombra, sem tirar os olhos do alto da escada.

"Então era mesmo... Aço valiriano?"

"Mas é claro que não. Era só uma ótima faca. Era minha arma favorita."

"E o quanto valia?"

"Não faço ideia. Eu ganhei em uma aposta. De alguém que ganhou de presente."

"O que você veio pegar aqui vale mais?"

"Algumas coisas não tem preço.

"Não seja idiota, tudo tem um preço..."

A única resposta foi um ruidoso estalar do cadeado de ferro se abrindo. Ambos entraram em silencio no próximo corredor, que era adornado com inúmeras pequenas portas.
"Eu vou por aqui" Disse um deles enquanto acendia outra vela na chama da primeira. "o que você procura está daquele lado. Nós nos encontramos amanhã no lugar de sempre para comemorar. Não faça nenhuma merda."

Cada um seguiu para um lado, sendo separados pela escuridão. O que não tinha respondido, olhou para trás ainda a tempo de ver a luz fraca dobrar a esquina e desaparecer. Abriu a porta diante de si, que dava para uma sala cheia de baús, urnas e vasos.
Entrou, parou, e então respirou profundamente e com calma. Havia ali varias mudas de arvores, plantadas em recipientes de barro. Alguma excentricidade de um homem rico, que colecionava plantas exóticas de terras distantes.
O rapaz mediu por um instante, quanta comida um homem simples poderia comprar com o valor de apenas um daqueles vasos, que carregava uma muda de arvore que nem ao menos dava frutos.

Lá fora, a noite continuou tranquila e silenciosa por um bom punhado de minutos, até que um grito de mulher rasgou a quietude. Logo em seguida uma enorme comoção se fez na embarcação, acompanhada do barulho das botas em passos pesados pelo piso de madeira. Como que acordando o dia, a cacofonia findava a noite, dando lugar aos primeiros raios de sol de um dia quente e abafado.

Em questão de instantes havia pelo menos vinte guardas na calçada de pedra que formava a marina. A frente deles havia um homem gordo, de rosto rosado e rechonchudo, bigodes fartos e uma barba espessa tingida de verde, que em nada parecia ser o senhor de um barco nomeado de abismo.
Suas roupas eram caras, mas simples, provavelmente suas vestes de dormir. Ele estava histérico, gritando algo sobre o que faria ao homem morto que havia ferido uma de suas mulheres.

Ao mesmo tempo, em uma rua não muito distante dali, um soldado agarrava um garoto pelo braço. "Eu o peguei" dizia o homem, que segurava uma capa preta na outra mão.
Outro homem de armadura de couro e lança, que vinha a frente de um pequeno grupo, levantou a voz. "É esse? Aonde estão as joias?"

O garoto estava assustado, mas permaneceu quieto, enquanto o revistavam. Tiravam de seus bolsos duas pequenas sacolas, não maiores que um punho fechado.
O chefe do grupo pegou uma delas e abriu. "Não tem nada aqui" disse, virando o saco que despejou no chão um punhado de terra escura.
"Alguma arma?" Perguntou.

"Não, ele deve ter escondido também" Disse o guarda, ainda segurando-o pelo braço.

Um dos homens que estava mais atrás, chegou perto e olhou bem o rosto do jovem. "Espere. Eu o conheço, é o filho de algum nobre. Eu o vi ontem na casa vermelha. Ele deve estar voltando de algum puteiro" o guarda que falava, trazia no cinto uma faca, embainhada em um lenço marrom.
"Deixem ele ir" Disse o líder, e assim o fizeram, seguindo em patrulha pela rua.

Cyan viu o grupo partir, se ajoelhou na pedra e tentou recolher o que pode da terra espalhada, enquanto as pessoas começavam a tomar a rua no dia que já nascia.

Horas depois, Grimm lhe perguntava aonde estivera a noite, enquanto cavalgavam cercados pela comitiva de Lorde Connor. Ele não respondeu. Em silencio, seguia com seu cavalo e olhava para um corpo pendurado no meio da rua. Era um garoto da sua idade, apenas 15 anos. Estava nu e tinha as mãos e pés estraçalhados por golpes de martelo. Servia de exemplo para outros ladrões.

Eram as primeiras horas da manhã, e o céu ainda era de um azul ciano. O jovem MacLeod olhou para a pequena bolsa cheia de terra, na palma de sua mão. Terra de um vaso de pinheiro, trazido da ilha do urso, a pedido de um colecionador. Era um presente para a garota de quem tanto havia escutado seu pai falar, a jovem Lady Mormont.
Olhou novamente o corpo enforcado que pendia sobre a rua. Seu pobre amigo de Pentos. Lamentava não poder nem ao menos enterra-lo, enquanto cavalgavam para fora da cidade.
Tudo tem um preço, pensava, apertando os dedos.
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